Luíza e suas palavras



Sem conseguir se concentrar em nada, deletou mais um documento. Abaixou a cabeça e soltou um suspiro. Sempre lhe fora mais fácil criar um novo mundo, no entanto, naqueles dias, seu próprio mundo andava tão turbulento a ponto de abalar até a ficção!
Depois de alguma luta interna, reabriu mais uma vez sua caixa de entrada. As mensagens de Luíza estavam lá, como a provoca-la. Abriu uma. Outra. Mais outra. Quando deu por si, estava relendo todas mais uma vez, dentre tantas.  “Meus lábios... em sua pele...” “Quero te amar...”  Eram palavras marcantes. Palavras de Luíza. Seus dias estavam sendo Luíza e suas palavras. Suas palavras e Luíza.
_O que está fazendo? Já fez o que pedi? – A voz veio lhe trazer a realidade, lembrando que Luíza não estava ali.
_Não... eu estava... – Fechou rapidamente o notebook, mais uma vez aborrecida. Precisava respirar para conseguir entender o que acontecia, mas não tinha espaço para isso.
_Estava viajando em alguém, com certeza... Mas dá pra parar com isso que precisamos trabalhar? Você só sabe viver no mundo da lua e eu estou cansada! Estou cansada dessa falta de atenção, desse desinteresse... – O tom de voz vinha nervoso e irritante. Cobranças, acusações, reclamações.  Nessas horas sentia vontade de desaparecer. Nem sonhar acordada lhe parecia possível.
Tratou de fazer suas obrigações o mais rápido possível para sumir dali. Precisava andar. Pensar. Chorar, talvez... Apaixonara-se por uma pessoa que morava longe e que tinha alguém, assim como ela própria. Precisava encontrar uma saída, ou acabaria louca.
Enfim, pôde sair. Preferiu ir andando até sua casa, pela praia. Desceu até a areia, ficou descalça e, com os tênis na mão, saiu caminhando com a água, gelada naqueles dias, cobrindo apenas seus pés. Andou, andou. Os olhos em qualquer ponto, a cabeça em Luíza. Luíza e suas palavras. Mas Luíza lhe dissera que estava cansada de palavras. Sentiu um aperto no peito. Não podia deixar Luiza se afastar. Precisava trazê-la para perto! Luíza... Desistira de tentar entender o que acontecia para se entregar à paixão que Luíza lhe oferecia. Como?
Parou e olhou para o mar, como a pedir ajuda à natureza. Precisava encontrar um caminho. Um caminho que lhe permitisse viver sua grande paixão, sem dores, sem sofrimento para ninguém.  Ficou assim sem saber por quanto tempo, até que um vento gelado agitou seus cabelos. Era hora de voltar para casa.
Com a cabeça atordoada, passou a andar rapidamente e deixou a praia. Seguiu pelas ruas da cidade sem notar ninguém, até que chegou em sua casa. Felizmente não havia ninguém.  Estava só e isso era maravilhoso! Adorava ficar sozinha, principalmente agora, para poder pensar em Luíza sem ser interrompida. Entrou correndo, brincou com seus bichinhos e ligou o PC. Novamente. Luíza. Novas mensagens? Não! Era domingo e Luíza sumira! Novo aperto no peito.
Ligou um som. O som que lhe trazia Luíza! Despiu-se das roupas pesadas e jogou-se na cama, fitando o teto.  Luíza... Luíza... Onde você está, minha paixão? Deixou escapar um gemido e fechou os olhos. Luíza... Luíza... Passou as mãos pelo corpo. Eram suas... Eram dela... Imaginou-se a tocando... Precisava senti-la!
Escutou algum barulho e ergueu a cabeça, mas ao constatar que não era nada, soltou-a no colchão. Levou a mão ao peito, que batia descompassado... Por Luíza! Tocou um seio, muito levemente, depois o outro... Ambos subiam e desciam, denunciando uma parte de seu desejo. Estava inteira arrepiada... Quente... Necessitava sentir o toque de Luíza... Ela lhe dissera que queria... Que desejava... Mas Luíza estava cansada de palavras!
Virou-se na cama, para um lado, para o outro. O desejo se revezando com o desespero. Nunca beijara Luíza e era louca por ela de uma maneira inexplicável. Sonhava com os lábios dela... Faria qualquer coisa por um beijo de Luíza.
Naquele momento, já livre da culpa, percebeu que era tarde demais para voltar atrás. Iria se entregar mais uma vez ao prazer solitário, já que Luíza não estava ali para acalmá-la, para enchê-la daquele amor que prometera. Os olhos fechados, a cabeça voltada ora para um lado, ora para o outro... Escorregou a mão pelo abdômen e, em meio às batidas da bateria nervosa da música que colocara para potencializar a imagem de Luíza, escutou a própria respiração ofegante. Luíza... Sua boca... Em minha pele... Minha boca em você... Beijando... Beijando mais e mais... Luíza...
_Estou louca por você... – deixou escapar, como se Luíza estivesse ali.
Desceu a mão, ainda mais... Sem medo de ser flagrada. Descobriu-se transbordando de desejo. Sabia bem o quanto estava pronta para Luíza. Seu corpo queria o dela. Sua mente também. Naquele momento, ela era apenas prazer. Prazer e Luíza. Luíza era seu prazer. Imaginava-a de todas as formas. Nua. Sorrindo. Séria. Nua. Toda nua. Toda para ela.
_Luíza... – O nome escapou de seus lábios. Lábios que precisavam ser beijados.
Por Luíza.

Comentários