Apenas um conto...

O CINZA PELO VERDE




O ar frio da manhã chegava trazendo uma sensação agradável de felicidade que Ana Júlia nunca conhecera, até então. Estava na varanda de um chalé, diante do maior espetáculo da natureza: o amanhecer nas montanhas de Minas Gerais.

Voltou para dentro e viu a razão de tamanha euforia: Bruna, ex-Bárbara, que dormia suavemente entre edredons quentinhos. Bela, sensual. Ainda por cima carinhosa. Se soubesse, não teria esperado tanto tempo para fazer tamanha loucura. Sorriu ao se lembrar de como tudo começou.



Era uma manhã cinza e triste, como a maioria delas, naquela selva de concreto. Logo quando o dia amanhecia os baladeiros, amantes e trabalhadores da noite se entocavam e as demais pessoas começavam a batalha rotineira. E, Ana Júlia sabia, aquela bela garota da noite se escondia. Ela ia descansar o corpo, depois de mais uma noite de trabalho árduo nas boates, dançando, despindo-se algumas vezes, deitando-se com estranhos...

Naquela manhã, em especial, Ana Júlia estava na padaria prestes a pedir o pão, quando ouviu uma voz rouca atrás de si. Inalou o ar e sentiu o odor doce, forte, com toque de noite, que vinha dela. Era Bruna. Era a bela garota da noite.

E Ana Júlia prendeu a respiração. Por meses, vinha sonhando com essa estranha mulher, de quem sabia muito pouco. Sabia que ela se chamava Bruna, trabalhava nas boates da “boca do lixo” de São Paulo com o nome de Bárbara e que era linda a ponto de destoar dos lugares imundos que frequentava.



Ana Júlia encantara-se com ela a primeira vez que a vira, na rua, em frente ao hotel, vestindo roupas vulgares para destacar o corpo exuberante. De repente, seus olhares se cruzaram. Ana Júlia sentira o sangue gelar e chegara a se censurar pelo absurdo da situação. No dia seguinte, passara com o carro no mesmo lugar e ela estava lá. Mais um vez seus olhares se cruzaram. Ana Júlia sentira grande vontade de encostar o carro, mas não o fizera.

Ela passou a povoar os pensamentos de Ana Júlia, pondo em dúvida seus desejos, sua identidade sexual. Ana Júlia era bela, feminina e atraente aos homens. Era normal! Por que essa obsessão repentina por uma garota de programa?

Por algumas noites tentara se esquivar, desviar o caminho, porém o carro ia sozinho. Certa noite, algo muito forte fizera Ana Júlia estacionar e descer na padaria que ficava no mesmo quarteirão do hotel que ela costumava ficar. Pedira um maço de cigarro. Ana Júlia não fumava, contudo naquele horário, naquele lugar, mais natural que cigarro somente uma cerveja, só que isso a faria ser facilmente confundida com uma mulher da noite.

A padaria do pão nosso de cada dia se transformava, nas noites, em um lugar de péssima energia. Quase todos os homens olhavam sedentos para Ana Júlia, que se sentia devorada. O zumbido de vozes que sustentava o cheiro de alcool no ar concorria com a fumaça dos cigarros e, vencedor da categoria pior detalhe do lugar, a gordura exalada dos hambúrgueres na chapa.

_Boa noite... - uma voz feminina, levemente rouca, soara atrás de Ana Júlia, fazendo-a se virar.

A surpresa fora tanta que não conseguira responder. De repente, vira-se presa nos olhos verdes daquela garota, que tanto invadia seus pensamentos.

_Eu vejo você passar sempre por aqui... - ela sorrira, em meio à maquiagem.

_É... Eu moro aqui perto...

_Venha tomar uma cerveja comigo... - ela sentara no balcão da padaria e, chamando o atendente pelo nome, fizera sinal para que este trouxesse uma garrafa.

Ana Júlia sentara no banco ao lado, o coração aos pulos.

_Qual é seu nome?

_Ana Júlia... - dera um gole e sentira-se melhor – E o seu?

_Bárbara... - ela aproximara-se do ouvido de Ana Júlia e sussurrara: - Meu nome verdadeiro é Bruna...

_Bruna... - Ana Júlia fixara os olhos nela. Ela tinha os traços marcantes. Os cabelos vermelhos, lisos; os olhos verdes, penetrantes. O nariz aquilino dava-lhe um ar misterioso e a boca carnuda convidava a um beijo. Ana Júlia pensava estar louca, com semelhante pensamento. Chegara a corar, com medo que ela pudesse ter percebido suas observações.

_Eu sou do Rio Grande do Sul... Preciso fazer dinheiro...

_Tudo bem... - Ana Júlia ficara encabulada. Não queria que ela se justificasse pela vida que levava.

_E você... faz o quê?

_Sou artista plástica...

_Que interessante... - Bruna se virara totalmente para Ana Júlia. Dera um grande gole da cerveja, colocara o copo no balcão e, sorrindo, perguntara, com a voz baixa de quem já sabia a resposta: - Por que está aqui, se não combina com o lugar?

Ana Júlia se perdera nos olhos dela. Não podia responder. Não precisava responder. Estava ali porque queria conhecê-la.

_Você é casada, Ana Júlia?

_Não... Eu me separei há pouco...

_Tem filhos?

_Não... Porque? - Ana Júlia estava gostando do interesse dela. Queria ver onde ela iria chegar.

_Então vamos esticar a noite!

Por essa Ana Júlia não esperava. E não era a idéia muito atraente?

_Vamos para um barzinho legal... Podemos dançar, se você quiser...

Ana Júlia levantara-se do banco e, abrindo seu melhor sorriso, dissera:

_Vamos.

Naquela noite rodaram de bar em bar. Beberam, riram e conversaram muito. Descobriram, além de muitos gostos em comum, uma grande atração, que fizera com que terminassem a noite no apartamento de Ana Júlia.

O primeiro beijo de Bruna, assim que fechara a porta do apartamento, pegara Ana Júlia de um jeito marcante, apesar de suave. Descobrira na pele de mulher um desejo que queimava. As mãos de Bruna, sedentas, quentes, procurando-a, querendo-a por inteiro, deslizaram por todo seu corpo querendo acariciá-lo, valorizá-lo e amá-lo. Tratara seu corpo como o dela nunca fora.

Ana Júlia a percebera carente e se apaixonara por ela. Amara-a como nunca, naquela noite. Beijara todo o corpo dela, olhando-a nos olhos. Sugara-a e a fizera delirar. Tomara o suco dela e entregara-se por inteiro.

Porém, adormecera nos braços dela e na manhã seguinte, ao acordar, ela já não mais estava. No ar apenas pairava o perfume de garota da noite. Ana Júlia fora até a janela e já era mais uma manhã cinza. Talvez nunca mais a visse. Sentira um aperto no peito. Entrara no chuveiro com lágrimas nos olhos, contudo retomara sua vida.

Meses se passaram sem que Ana Júlia visse Bruna, ou Bárbara, fazendo ponto na porta do hotel ou circulando pelos nights clubs. Talvez houvesse conseguido ajuntar dinheiro suficiente para voltar ao Sul. Ou estaria apenas trabalhando por agências, em outras boates, outros lugares...



Entretanto, naquela manhã, naquela certa padaria, a voz que um dia a enlouquecera estava lhe dando bom-dia e deixando o ar adocicado.

_Bruna...

_Ana Júlia...

A atendente da padaria entregou o pão à Ana Júlia, que pagou e saiu, puxando Bruna pelo braço. Não se importava se Bárbara estava evidente que vinha do trabalho, com a maquiagem borrada e o ar cansado. Queria levá-la para casa. Queria leva-la para longe. Viu-se dizendo isso a ela, na calçada, na esquina de uma região central de São Paulo, onde a noite que havia acabado liberava todo tipo de ser.

_Quer me levar para longe? - Bruna olhou para ela, os olhos verdes, apesar de cansados, brilhando.

_Quero! Quero sumir com você! Quero arrancar você daqui... Vamos! Vamos tomar café comigo...

Antes de entrar no prédio de Ana Júlia, Bruna parou e segurou-a pelo braço, obrigando-a a olhar para ela. Tinha algo a dizer:

_Eu estou com o dinheiro que eu almejava alcançar e vou deixar essa vida... Estou indo embora de vez... Mas não podia ir sem antes encontrar você... Eu precisava ver você mais uma vez, Ana Júlia...

_Oh... Não pode ir assim...

_Vamos comigo... Vamos sumir comigo... Leve-me para qualquer lugar...

Ana Júlia olhou-a nos olhos por um longo tempo, ignorando os transeuntes que as olhavam, curiosos. O que uma artista maluca e uma garota de programa poderiam ter em comum?

Paixão.

Sem vergonha alguma, colou seus lábios nos dela e beijou-a.

_Vamos! Vamos, sim! - Ana Júlia sorriu, radiante. - Vamos viajar! Vamos cair no mundo!

_E vamos ficar juntas? - os olhos verdes de Bruna mostraram uma radiação quase infantil, de tão natural.

_Vamos! Vamos ficar juntas... Claro que sim! - abraçaram-se com força.



_Meu amor... - Bruna abriu os olhos e espreguiçou. Era ainda mais bela ao acordar, sem o peso das maquiagens agressivas – Está me olhando...

_Estou admirando você... Lembrando de tudo... - Ana Júlia beijou-a, com carinho.

A campainha tocou e uma belíssima bandeja de café-da-manhã foi depositada sobre a mesa.

_Estou sonhando? - Bruna perguntava isso a todo momento, como se tivesse medo de acordar.

_Não, meu amor... - e Ana Júlia estava determinada a não deixar aquilo acabar nunca. Mudaria sua vida. Mudaria a dela. E ficariam juntas.





                                                FIM

* Se quiser ler mais de Marih Macar, visite: https://www.wattpad.com/120167827-as-amazonas-das-montanhas-epis%C3%B3dio-uma-noite

E aguardem novidades!

Comentários

Bertha Solares disse…
Somos escritoras morando na mesma cidade.
Entre em contato comigo.
besolares@hotmail.com
Ou conheça meu blog
http://berthasolarespraiadepensamentos.blogspot.com/
Bjs.